“ Nós os ciganos, temos uma só religião: a da liberdade.
Em troca desta, renunciamos à riqueza, ao
Poder e à gloria (…)”

Na semana passada, sexta-feira, dia 30, a festa multicultural, no Bairro da Rosa, marcou o encerramento do ano lectivo recorrente.
Esta festa foi um projecto conjunto dos professores e alunos, maioritariamente de etnia cigana.
Foram exibidas danças ciganas, levadas a palco por meninas da etnia; muita música cigana cantada ao vivo por ciganos adultos que terminaram este ano o 6º ano de escolaridade, no Centro Comunitário de S. José, no Bairro da Rosa.
É de relevada importância salientar a abertura cultural do povo cigano à cultura não cigana.
Primeiro, porque a cultura cigana não privilegia a educação escolar.
Um costume que está a mudar dentro do seio desta comunidade; os ciganos já não querem aprender a ler e a escrever o mínimo e essencial, querem mais.
A prova do querer saber mais está no grupo de alunos adultos que concluíram este ano o 6º ano.

A nossa vida é uma vida simples, primitiva, basta-nos ter por tecto o céu, um fogo
para nos aquecer e as nossas canções quando estamos tristes.



Um costume que vai passar de pais para filhos, já que estes alunos crescidos dizem: “ eu não consigo ir mais longe, mas os meus filhos vão. Os meus filhos vão ser doutores!”, quem o diz é António, um cigano encantado com a descoberta do mundo escolar.
Como dissemos atrás, o povo cigano está aberto a novas experiências e a novas culturas. Nesta festa, para além da apresentação de espectáculos tradicionais da etnia, o fado de Lisboa saiu à rua pela voz de Severa, uma menina de etnia cigana; já para não falar do grupo de meninas, da mesma etnia, que dançou ao som de shakira e de outros ritmos quentes.
O olhar de entusiasmo dos finalistas saltou à vista de todos os presentes, bem como a tristeza do abandono, do fim, e do sonho.
A relação de professor/aluno, ia mais além do ensinar letras, fazer contas, e contar histórias de Portugal. Esta relação irradia amizade, felicidade e gratidão de ambas as partes; mais que uma vez foi dito, “não fui só eu que ensinei, vocês ensinaram-me muita coisa”, disse com alguma nostalgia a professora dos alunos adultos.
Verdade seja dita, os ciganos travam uma autêntica batalha no mundo dos não ciganos.
Se por um lado estes, baixam a cabeça ao passar ao lado de um cigano; o cigano revolta-se por não o olharem de frente como a um qualquer.
Isto aplica-se a toda a vida social, seja na escola, onde são temidos; seja na rua, onde lhes baixam a cara; seja onde for.
Será muito melhor, mais digno, mais honesto e respeitoso, olhar nos olhos e perceber que a beleza da igualdade está na diferença!
Gouveia Monteiro, Vereador da habitação da Câmara Municipal de Coimbra, esteve presente nesta festa.
O vereador tem feito um trabalho rigoroso neste Bairro Social.
As iniciativas têm sido muito bem aceites, principalmente pelos ciganos.
O projecto de aulas para adultos foi implementado por ele e aceite pela comunidade.
Gouveia Monteiro deixou alguns votos de felicidade aos finalistas, e a vontade de fazer mais e melhor por todos, “ Nós vamos fazer tudo para que consigam continuar os vossos estudos. E para que tenham pleno êxito no vosso futuro”, conclui antes de abandonar a festa.
A festa terminou, já perto da hora de almoço, com dois professores a dançar ao ritmo da salsa, merengue, tango e milonga.
De seguida foi a vez do público aprender a dançar, os professores fizeram uma espécie de workshop, onde ensinaram alguns movimentos e passos dessas danças.
E mesmo para concluir a parte dos espectáculos, e porque a fome já começava a apertar, foi distribuído por todos os presentes um exemplar do Jornal “A Liberdade”.
Um projecto realizado pelos alunos adultos e pelas professoras.
Ficou no ar a vontade de continuar com este projecto, no entanto as professoras ainda não sabem se ficam colocadas no mesmo estabelecimento de ensino.


Até podíamos dizer que todos os anos existem festas de encerramento de ano lectivo.
Até podíamos dizer que as crianças vivem todas com a mesma alegria o começo das férias.
Até podíamos dizer que é tudo sempre igual.
Mas não é!


Ainda há crianças que abandonam o ano lectivo a meio para ir trabalhar.
Há crianças que vibram pela primeira vez com a liberdade de poder aprender.
Há crianças que vêm pela primeira vez uma mão que as puxa e as lembra que são crianças.
Há adultos que descobrem pela primeira vez a maravilha da aprendizagem.


Há culturas que se unem; há radicais que se abrem a novas culturas e a novos conhecimentos.
Há professores humildes que descobrem que não existem apenas para ensinar letras e tabuada.
Há mãos de cores diferentes que se entrelaçam, há sentimentos e emoções novos.
No fundo, há esperança!



“Nasce-se cigano.
Agrada-nos caminhar sobre as estrelas.
Contam-se estranhas histórias sobre ciganos.
Diz-se que lemos nas estrelas e que
Possuímos o filtro do amor.
As pessoas não acreditam nas coisas que não
Sabem explicar.
Nós, pelo contrário, não procuramos explicar
As coisas em que acreditamos.”

Quando se morre deixa-se tudo:
um miserável carroção como
grande imperio.
E nós cremos que nesse
momento, é muito melhor
ser cigano do que rei.